quinta-feira, 23 de abril de 2009

Um cheirinho de confiança


O filósofo inglês John Stuart Mill já havia advertido: a confiança nos outros é fundamental para a vida em sociedade – inclusive para as relações econômicas. Se isso já era flagrante em 1848, imagine hoje em dia, quando números de cartão de crédito são enviados à Amazon.com pela internet, contas são pagas e dinheiro é transferido pelo computador, e muitos gerentes de banco são conhecidos apenas pelo telefone. Atualmente, um dos principais estudiosos da importância da confiança para as relações humanas é Paul Zak, do Centro para Estudos Neuroeconômicos da Universidade Claremont, na Califórnia, que em 2001 elaborou com seu colega Stephen Knack, do Banco Mundial, um modelo matemático que predizia o nível médio de confiança da população de 43 países. Chegaram bastante perto de acertar dos 5% encontrados no Peru aos 65% observados na Noruega. Mais importante ainda, o modelo previa que o impacto principal da estrutura legal de cada país sobre o seu desenvolvimento econômico não se daria diretamente, mas sim por afetar o nível de confiança da população. Se este é muito baixo, a economia simplesmente não anda. Como Zak e Knack observaram, países com índices de confiança muito baixos têm tipicamente instituições legais fracas, distribuição de renda muito desigual, e elevada heterogeneidade social.


Mas a confiança não é feita somente de heterogeneidades econômicas, sociais ou legais. Trata-se de interação social, e existem bases biológicas para a formação de elos sociais e afetivos entre indivíduos. O mais conhecido promotor de elos afetivos é o hormônio e neuropeptídeo ocitocina, liberado no cérebro das mães após o parto, no dos pais ao segurarem seus bebês pela primeira vez, e no de ambos durante o orgasmo. Uma função “socializadora” do hormônio também é evidente em arganazes, pequenos roedores que existem na natureza em versões sociais, monógamas, cuidadosas com a prole e muito sensíveis a ocitocina, e versões anti-sociais, polígamas, que abandonam rapidamente a prole, e pouco sensíveis a ocitocina. Zak estava a par desses dados em 2001, quando iniciou um programa de pesquisa que visava a investigar se a ocitocina, além de promover elos sociais afetivos, também influencia em humanos essa atitude que é base para uma vida bem-sucedida em sociedade: a confiança em outrem.


Os resultados foram publicados na revista Nature em junho de 2005. Zak e três colaboradores da Universidade de Zurique, na Suíça, avaliaram em 194 jovens universitários, todos homens, o efeito de três borrifadas de oxitocina em cada narina sobre a sua vontade de confiar dinheiro a “banqueiros”. O dinheiro (de verdade, a ser recebido ao final do experimento) aplicado por cada investidor seria triplicado na mão do banqueiro – mas este teria total poder de decisão sobre a quantidade a devolver ao investidor (bastante realista, não?). Os banqueiros no experimento sempre devolviam quantias maiores do que as investidas, mas – de maneira também bastante realista – nunca correspondentes a uma divisão igualitária dos lucros...


Já foi demonstrado anteriormente que ocitocina borrifada no nariz atravessa a barreira hemato-encefálica e chega ao cérebro – e esta deve ser a base do achado principal da equipe: sob os efeitos do neurohormônio, duas vezes mais investidores confiavam aos banqueiros do experimentotodo o seu dinheiro, correndo inclusive o risco de não receberem nada de volta. O valor médio dos investimentos era também 17% maior sob os efeitos da ocitocina. O valor do retorno, claro, não mudou nada – apesar de os banqueiros também terem borrifado ocitocina no nariz. Decidir quanto dos lucros dividir com o investidor não é uma questão de confiança, já que o banqueiro não corre risco algum na transação.


As conclusões possíveis são variadas. Ocitocina deixa o cérebro bobo? Talvez, no caso dos investidores. Mais propenso a aceitar riscos? Não, segundo um experimento controle onde o retorno financeiro da aplicação era determinado randomicamente, e não pelo banqueiro: neste caso, a ocitocina não teve nenhum efeito sobre a proporção de investidores que aceitavam arriscar tudo, nem sobre o investimento médio. O efeito da ocitocina, então, só se dá quando a interação é social, entre pessoas reais, e envolve confiança? Provavelmente. Isso significa que bancos e instituições financeiras agora podem passar a borrifar ocitocina no ambiente, para aumentar as chances de receber bons investimentos de seus clientes, agora mais confiantes? Certamente podem – principalmente porquesprays de ocitocina, aliás idênticos ao empregado nos experimentos, estão à venda em qualquer farmácia na esquina, receitados geralmente para facilitar a descida do leite em mães lactantes.


António Damásio, escrevendo a respeito do artigo na mesma edição da revista Nature, contemporiza lembrando que artimanhas de marketing para aumentar o nível de ocitocina no cérebro de clientes de bancos e da população em geral já são usadas há muito tempo, e provavelmente são pelo menos tão eficientes quanto umspray de ocitocina no nariz. Mas há uma outra possibilidade, mais otimista e confiante (talvez porque meu cérebro esteja mais banhado por ocitocina que o do Damásio?). No dia em que bancos e afins usarem perfumes ambientes de aroma ocitocina, não serão os clientes os únicos afetados: também gerentes e os demais presentes na agência ficarão sob a influência do que tanto Damásio quanto a antropóloga Helen Fisher chamam “hormônio do amor”, e assim mais propensos a acreditar na boa índole do próximo. Portanto, longe de ser apenas a possibilidade de manipulação mercadológica alardeada nos jornais que afetaria os níveis de ocitocina somente no cérebro do comprador, talvez o tal temido spray de ocitocina acabasse conseguindo o que décadas de eleições abertas em inúmeros países não conseguiram: tornar as relações econômicas mais justas. Imagine só: uma agência bancária, financeira ou uma plenária do Fundo Monetário Internacional aromatizada com ocitocina, onde todos estão dispostos a confiar na boa índole alheia...


Fonte: Kosfeld M, Heinrichs M, Zak PJ, Fischbacher U, Fehr E. Oxytocin increases trust in humans. Nature 435:673-676, 2005.

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